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Em tempos de Copa e muitos gols, saiba como evoluíram as palavras

05/07/2018

A anomalia gramatical do gol

Sérgio Rodrigues - Uol Educação – 05/07/2018 – São Paulo, SP

Importado como o jogo, o vocabulário boleiro também tem lances de gênio

Nos meus tempos de garoto peladeiro, chamávamos escanteio de córner e zagueiro de beque. O Brasil já era tricampeão mundial, seu futebol consolidado no imaginário do planeta como uma escola original, mas no campo da linguagem o processo de abrasileiramentodo jogo não tinha se completado. A realidade vai na frente das palavras. 

O córner e o beque —formas aportuguesadas de `corner` e `back`, termos do vocabulário inglês que acompanhava o esporte desde o berço— não desapareceram por completo de nossa paisagem futebolística, mas perderam espaço. Hoje carregam por aí aquela aura antiguinha e meio cômica que na minha infância rodeava uma palavra como quíper (de `keeper`, forma abreviada de `goalkeeper`, goleiro). 

O melhor do processo de amadurecimento do vocabulário do futebol no Brasil é que ele se deu de forma, digamos, natural, e não como resultado de um projeto linguístico nacionalista —que de resto dificilmente teria dado certo, como não deu certo a tentativa purista de chamar o futebol de balípodo ou ludopédio. 

Prova da natureza espontânea do processo é o fato de soluções variadas conviverem em campo. Hoje datados, o quíper, o córner e o beque não levaram com eles em sua decadência outros vocábulos da mesma estirpe. A tradição de importar palavras e adaptar sua grafia a tapa se mantém viva no futebol (`football`, como até as traves sabem), no craque (`crack`, no original um adjetivo empregado como gíria esportiva para significar `excelente`) e no pênalti (`penalty`, penalidade). 

História bem diferente tem a palavra zagueiro, que tomamos de empréstimo ao espanhol, provavelmente tocados pela inspiração bélica que costuma rondar o futebol e que nos deu o artilheiro e sua hipérbole, o matador: `zaga`, do árabe `saqa`, é a parte traseira de qualquer coisa, mas sobretudo a retaguarda da tropa. 

Nem tudo é importado. A bela palavra escanteio brotou como um neologismo de laboratório, forjado a partir de canto, tradução literal de `corner`. À primeira vista poderia parecer um daqueles vocábulos fadados ao fracasso, como balípodo. A diferença é que pegou.

 Há soluções que tangenciam o gênio, como o uso da palavra falta para traduzir `foul` (jogo sujo, violação das regras), um caso em que a liderança do processo foi assumida pela similaridade sonora, fortuita, pois etimologicamente não há parentesco algum entre as palavras. Acontece que o sentido, vindo atrás, acabou por funcionar também: uma das acepções clássicas de falta é a de ofensa, pecado. 

O caso de gol, minha palavra boleira preferida, é de todos o que mais endurece o jogo com a língua. Numa leitura superficial parece que o gol é só mais uma importação simples e desencanada (de `goal`, meta), como as que nos deu o craque e o futebol. Engano: gol é uma anomalia gramatical do português brasileiro —não do lusitano, que resolveu o problema antes que ele se manifestasse, transformando a palavra em `golo`. 

Mas qual é o problema? Na verdade são dois: desencontro de grafia com pronúncia e plural maluco. Por reproduzir um som estrangeirado (`gou`), nosso gol bate de frente com o espírito da língua, que sempre vai tascar uma vogal bem aberta em sol, anzol, bemol, espanhol etc. E o plural gols, também anglófono na alma, não tem paralelo em português. 

Os sábios chamam isso de barbarismo e recomendam o uso —gloriosamente ausente da língua real— do plural `gois` ou mesmo `goles`. O que é engraçado. Como sabe qualquer torcedor, o melhor papel dos goles no futebol é ajudar na comemoração dos gols.

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