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O DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL DA CRIANÇA – DO NASCIMENTO AOS SEIS ANOS

 

A evolução da personalidade da criança constitui um importante campo de pesquisa psicológica e uma constante preocupação para os pais. A inteligência não é uma função isolada, e sim o resultado de múltiplos fatores que têm por objeto o conhecimento conceitual e racional. A inteligência depende do potencial de cada indivíduo, adquirido em parte por hereditariedade, o que determina uma série de possibilidades que se desenvolverão progressivamente sob a influência do amadurecimento e da aprendizagem.

 

O aparecimento de certas funções se dá em momentos diferentes para cada criança, o que para a educação, especialmente na idade mais tenra, cria certas dificuldades, pois é impossível prever o ritmo do desenvolvimento. Evidentemente, a influência do meio é decisiva. Muitas crianças nascidas num ambiente sociocultural desfavorável não podem desenvolver ao máximo seu potencial. Além do aspecto sociocultural, a afetividade é outro fator fundamental no amadurecimento da criança, especialmente nos primeiros seis anos de vida. É importante destacar que a maior parte da inteligência e da personalidade se define antes dos quatro ou cinco anos de idade.

 

Etapas do desenvolvimento da criança. O psicólogo e pedagogo suíço Jean Piaget trouxe contribuições fundamentais para a estrutura básica da aprendizagem. Segundo ele, o desenvolvimento da criança compreende as seguintes etapas:

 

·       Estágio sensório-motor

·       Estágio pré-operacional

·       Operações concretas

·       Operações formais

 

O estágio sensório-motor corresponde à primeira infância, do nascimento até os dois anos de idade. O estágio pré-operacional, dos dois aos seis anos.

 

Primeiro ao quinto mês. Durante o primeiro mês de vida, a criança só é capaz de produzir reações globais frente ao ambiente. Muito embora possa ser estimulada de forma mais ou menos precisa, sua resposta será global. Entre o segundo e o terceiro mês, dará progressivamente respostas mais seletivas. Entre os três e quatro meses a criança pode corresponder aos sorrisos, começa a segurar um brinquedo e algumas conseguem levantar-se por si mesmas ajudando-se com os braços. Aos três meses, os músculos ficam mais fortes e o bebê consegue movimentar-se com maior liberdade. Nessa etapa já não se pode deixá-lo só numa superfície da qual possa cair. Quando a criança quer pegar coisas ou segurá-las, é chegado o momento adequado para colocar um ou dois brinquedos a seu alcance. Um chocalho ou um bonequinho de material antialérgico são adequados.

 

Dos quatro aos cinco meses, nota-se um grande aumento da atividade do bebê. Ele ri ruidosamente, mantém a cabeça erguida quando é carregado, segura os brinquedos com firmeza, diverte-se batendo na água da banheira, levanta os bracinhos quando é tirado do berço. Também se levanta com as mãos ou com os antebraços quando fica deitado de bruços,  levanta a cabeça e os ombros e se vira no berço. É o momento adequado para dar ao bebê uma bola macia ou um boneco de tecido ou de pelúcia (deve-se assegurar que os brinquedos não sejam feitos de materiais que causem alergia). Nessa etapa, a criança começa a levar à boca tudo o que está por perto. É muito comum que os dentes começem a nascer aos quatro meses de idade, embora haja grandes diferenças de um para outro bebê. Em algumas crianças a dentição tarda mais, mas não há motivo para preocupação. Alguns bebês sentem grande mal-estar quando os dentes nascem; outros não. Um mordedor especial para o bebê ajudará a diminuir o incômodo.

 

Quinto ao sexto mês. Entre os cinco e seis meses, o desenvolvimento da criança continua a evoluir rapidamente. Nessa etapa, ela é capaz de virar a cabeça ao ouvir o ruído de uma campainha ou de uma voz, sentar-se com algum apoio, reclamar quando tiram-lhe alguma coisa, recuperar um chocalho quando ele cai, distinguir entre um estranho e os membros da família, segurar papéis e brincar com a água quando toma banho.

 

É um momento em que a criança necessita sentir e tocar as coisas. Quando estica os braços para alcançar, pegar e abraçar objetos, está preparada para os brinquedos que flutuam na água.

 

Os sons que a criança emite, uma espécie de cantarolar e borbulhar, são parte do aprendizado para falar. Ela descobre as diferenças nos tons de voz e percebe se a voz dos adultos revela irritação, consolo ou aprovação. Começa a entender e a reconhecer algumas das palavras que lhe dirigem, enquanto surpreende seus pais com balbucios que imitam a forma de falar dos adultos.

 

Oitavo ao décimo-segundo mês. Entre os oito e os doze meses, a criança já se senta com segurança sem apoio; brinca com sua imagem no espelho, engatinha e se põe de pé sozinha. Às vezes já sabe andar. Algumas crianças engatinham sentadas e outras sobre os joelhos, mas ambos os métodos têm o mesmo objetivo: levar a criança para onde ela quer ir. Brinquedos macios e laváveis que a criança possa segurar são os melhores para essa idade. Algumas crianças nunca engatinham: simplesmente levantam-se e começam a caminhar.

 

Nessa etapa, a criança entende muitas coisas que lhe são ditas, e pode dizer algumas palavras soltas como “mamã” e “papá”. Também dará adeus com a mãozinha e cooperará na execução de brincadeiras rítmicas próprias para sua idade.

 

Além de divertir-se sozinha, a criança necessita de contatos sociais. Em algum momento do dia, é conveniente que se una às atividades familiares.

 

Décimo ao décimo-oitavo mês. Aos dez ou doze meses, o bebê quase sempre emite algumas palavras e mostra que sabe o que significam. Pode ser que não acrescente palavras ao seu vocabulário por um tempo. Uma maneira de impulsionar o desenvolvimento da linguagem é dizer à criança coisas simples e, sobretudo, claras. Também pode-se cantar cantigas de ninar e recitar-lhe versos infantis.

 

Entre os doze e dezoito meses, ela pode caminhar sozinha ou com pouca ajuda; pôr-se de pé e sentar-se por si mesma; beber no copo e prestar atenção quando lhe falam. Entre quinze e dezoito meses, a criança já é capaz de ajudar quando a vestem. Essa é uma idade muito adequada para que brinque com cubos de madeira, pois já tem habilidade para empilhar dois ou três objetos. Um carrinho de puxar, livros de pano com ilustrações de objetos familiares e bolas são indicados nessa idade. As brincadeiras estimulam os sentidos e ajudam a criança a exercitar os músculos. Nessa etapa, ela já sabe usar a colher, ainda que de maneira incorreta. Seu vocabulário se estende gradualmente.

 

Dezoito meses a dois anos. Entre os dezoito meses e os dois anos de idade, a criança caminha, sobe em cadeiras e em escadas, sempre com rapidez e agilidade. Faz rabiscos no papel de forma espontânea e vigorosa. Também utiliza palavras que conhece, em frases curtas, e mostra o nariz, os olhos, os cabelos e as orelhas quando lhe pedem que identifique as partes do corpo. É capaz de construir uma torre alta com cubos, jogar uma bola dentro de uma caixa, gosta de folhear livros com ilustrações e usa a colher com habilidade. Nessa etapa, os pais podem iniciar o hábito de lhe contar histórias antes de dormir. Talvez ela não entenda grande coisa da história, mas vai gostar muito de olhar as figuras. Pode-se intercalar com canções de ninar. A hora das histórias e da música constitui um costume precioso para a mãe e o filho, que ambos recordarão para sempre.

 

Dos dois aos três anos. Aos dois anos, a criança pesa entre treze e dezesseis quilos e corre sem descanso. É uma fase de grande curiosidade, em que ela vai se interessar por tudo o que a rodeia. Come sozinha e vai para a cama contente, na maior parte das vezes, embora proteste de vez em quando. Brinca sozinha alegremente e sua mente se desenvolve num ritmo surpreendente. Aos dois anos, a criança precisa de contato social com outras crianças. O desenvolvimento social constitui um processo de aprendizagem e, como qualquer outro, se dá de forma paulatina. Mesmo que a criança de dois anos em geral brinque sozinha, rapidamente se acostuma com outras de sua idade. Nessa idade, os empurrões e os tapas podem ser comuns. A experiência lhe ensinará a respeitar os outros. Aos três anos, a criança participa de brincadeiras que exigem a participação de outros. Nessa etapa, o mais importante é fomentar a confiança da criança em si própria. É uma etapa em que ela fará suas primeiras tentativas de vestir-se e tomar banho sozinha. Pouco a pouco conseguirá.

 

É muito importante que os pais desenvolvam no filho o gosto pela música, pelos livros e pela arte, atividades que contribuirão bastante para tornar sua vida mais agradável. Deve-se proporcionar à criança material adequado para cada etapa. Uma boa parte dos discos para crianças existentes no mercado são de histórias. Também existem brinquedos que ajudam a despertar o interesse pela música e que permitem apreciar ritmos diferentes e possibilitar que escolham os sons ou até cantar com um microfone.

 

Dos três aos cinco anos. Dos três aos cinco anos, o desenvolvimento mental da criança é bastante rápido. Muitas já sabem vestir-se sozinhas –  talvez com um pouco de ajuda – e começam a usar números, mesmo que não em ordem. Também aprendem ritmos infantis e muitas vezes conseguem contar toda uma história depois de tê-la ouvido. É um momento de grande exploração e a pergunta “por quê?” torna-se uma constante em sua vida. Pensa que seus pais são uma espécie de enciclopédia ambulante. Aos quatro anos de idade, a variedade de brinquedos adequados é muito maior. Álbuns de figurinhas, ferramentas, jogos de café, patins, bolas, carrinhos, trenzinhos e bonecos são alguns dos brinquedos que as crianças de que as crianças gostam nessa idade.

 

Dos cinco aos seis anos. Dos cinco aos seis anos de idade, observa-se um grande avanço na criança. Ele pode abotoar e desabotoar todos os botões, mesmo os mais difíceis; pode calçar os sapatos, mesmo que não os saiba ajustar; distingue as cores básicas e mostra grande interesse em pintar e colorir os livros apropriados. É uma idade em que, através da escola, a criança vai aos poucos assumindo uma atitude mais independente e pode colaborar com algumas responsabilidades familiares como, por  exemplo, pôr a mesa, guardar a roupa suja no cesto etc. Entre os cinco e seis anos, a criança entra numa etapa de amadurecimento. Deixa de ser criancinha. Começa uma fase diferente de seu desenvolvimento.

 

 

O DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL DA CRIANÇA – DOS SETE AOS DOZE ANOS

 

Os estudos realizados pelo pedagogo suíço Jean Piaget, baseados na observação de seus filhos e de outras crianças, situam o desenvolvimento infantil, dos seis ou sete anos aos doze, dentro do que ele chamou “estágio das operações intelectuais concretas”. Esse estágio se caracteriza, basicamente, pelo surgimento do pensamento lógico e de noções de cooperação social. É claro que isso se dá gradualmente, como parte de um longo processo.

 

Dos sete aos nove anos. Entre sete e nove anos de idade, ocorre a afirmação e a organização do Eu. Isso significa que a criança começa a conhecer melhor a si própria e adquire uma consciência mais clara dos conceitos de masculinidade e feminilidade. Ao superar a etapa anterior, em que o egocentrismo era uma característica fundamental, a criança aos poucos  integra-se socialmente na estrutura cultural de seu meio. À medida que a criança amadurece, adquire instrumentos que facilitam sua integração à vida social e aumentam seu interesse por ela. Exemplos disso são a aquisição de um novo vocabulário e maior expressividade mímica Outra característica dessa idade é o surgimento de um sentimento de pudor em relação aos mecanismos infantis que ainda estão presentes em sua personalidade. Ainda precisa da presença constante dos adultos mas, ao aproximar-se dos nove anos, baseando-se em certas normas, a criança já prefere planejar sozinha certas ações. Em relação à parte emocional, passa por uma progressiva desinibição no meio escolar e se sente à vontade e segura em meio a outras crianças de sua idade. Aos oito anos, a criança é capaz de prestar atenção às coisas durante certo intervalo de tempo, mas sua energia se esgota depressa.

 

A criança de nove anos. Uma das características principais da criança de nove anos é a auto-motivação. Nessa idade, sua capacidade de concentração já aumentou consideravelmente e a criança é capaz de brincar durante várias horas com um jogo de montar, por exemplo. Nessa etapa, ela gosta bastante de pôr à prova sua habilidade. É uma idade adequada para aperfeiçoar-se no manejo de certas ferramentas e nas operações e problemas matemáticos. Gosta de planejar as coisas, e, diante de uma tarefa difícil, ouve atentamente as explicações. Por meio desse processo intelectual, vão sendo geradas novas atitudes emocionais. O estado de ânimo da criança de nove anos é variável, tendendo à timidez. Provavelmente não gostará de ir à frente da sala de aula para recitar um poema. Por outro lado, pode expressar sentimentos mais sutis; começa a preocupar-se com os conceitos de justiça e culpa. Outra característica da criança de nove anos é que em geral os desentendimentos com a mãe já terminaram e ela aceita bem melhor as normas de disciplina. Em geral escolhe um só amigo de seu próprio sexo e é freqüente que faça críticas ao sexo oposto. Apesar disso, é uma idade em que meninos e meninas podem juntar-se numa equipe de vôlei, por exemplo.

 

A criança de nove anos exige pouco tempo da mãe, pois está muito ocupada em suas atividades. É comum que os meninos gostem de futebol e que as meninas gostem de bonecas. Os meninos podem gostar  de lutar com os amigos. A criança de nove anos pode ser uma grande leitora. Gosta de ter acesso a muitos dados e informações e por isso não aprecia livros com excesso de  descrições.

 

A criança de dez anos. A primeira década da vida é de extrema importância para o desenvolvimento infantil. É uma idade em que se apresenta um quadro tão amplo e completo que com certeza se pode dizer que nessa etapa a infância alcança uma espécie de consumação. Repentinamente, pode ser perceptível uma mudança no amadurecimento do comportamento, das atividades e das idéias. É possível que a criança deixe de lado um objeto que até então fora muito apreciado (um brinquedo, um cobertor). Observa-se uma ampliação de seus interesses, que se refletem nas relações interpessoais na hora de brincar e na escola. As crianças de dez anos gostam dos amigos, mas as meninas tendem a ter uma “melhor amiga” durante um período prolongado. Os meninos são mais abertos nesse sentido. É uma idade em que costumam gostar muito da escola e em que aceitam com facilidade uma série de tarefas, sem ressentimento. Gostam de memorizar e de reconhecer fatos e adoram a atividade física que lhes permite exercitar sua massa muscular. As meninas também são atraídas pelo esporte. Curiosamente, os meninos de dez anos, que em certo sentido são um exemplo de auto-confiança, apresentam como uma de suas principais características freqüentes os ataques de raiva.

 

A brincadeira é o objetivo primordial na vida da criança de dez anos, mesmo porque ela já desenvolveu muito mais sua habilidade para atividades motoras. Os meninos gostam muito de formar equipes de futebol ou clubes de coleção de qualquer tipo de objeto.

 

A criança de onze anos. A criança de onze anos parece romper o equilíbrio quase perfeito que alcançou aos dez. Os onze anos marcam, sem dúvida, o começo da adolescência e a criança começa a manifestar formas novas de afirmação da personalidade e de sociabilidade. Torna-se inquieta, curiosa, um pouco tagarela. Tem uma fome voraz e constante e, ao mesmo tempo, sente-se também faminta de experiências. Não gosta de ficar sozinha e é muito dada a explorar as relações interpessoais com seus pais e companheiros. Sua vida emocional apresenta picos de grande intensidade. Começa a ter uma atitude crítica em relação aos pais. Embora as meninas e os meninos não convivam muito bem, inicia-se um processo de afabilidade entre eles. Os laços amistosos que se formam têm maior profundidade; é uma etapa em que os meninos gostam de passar uma noite na casa de algum amigo. Isso é particularmente freqüente entre as meninas. De modo geral, os onze anos são uma época de iniciação. Todo o organismo sofre uma série de transformações físicas e psicológicas. O Eu da criança está em crescimento; surgem contrastes e paradoxos em grande número. A mesma criança pode apresentar comportamento “bom” e “mau” alternadamente. Tudo isso são manifestações de que a criança está querendo afirmar sua própria personalidade e se encontra num momento de busca e experimentação com os próprios sentimentos. Começa a ter gostos individuais e às vezes desiste de seguir a profissão do pai.

 

No que se refere a seus interesses e atividades, a brincadeira foi relegada a segundo plano e o menino já não mostra a mesma ansiedade de antes para sair pela rua a fim de exercitar sua musculatura, por exemplo, em sua bicicleta. O projeto de construir uma casa no jardim, com todos os problemas que isso acarreta, é  típico de uma criança de onze anos. Persiste seu  gosto por coleções, mas com certeza a troca de objetos com seus colegas chamará mais sua atenção do que antes. Um aspecto interessante da psicologia da criança de onze anos é que começa a ter uma melhor noção de tempo e espaço.

 

A criança de doze anos. Os doze anos trazem uma série de mudanças favoráveis. A criança se torna menos insistente e mais ponderada.  Adquire uma nova visão de si mesma e de seus companheiros e seu egocentrismo já não é tão ingênuo. Quer obter a aprovação dos outros. Tem, além de tudo, um grande senso de humor e é uma idade propícia para que surja uma grande camaradagem entre pais e filhos. Em todas as situações demonstra tendência a ampliar sua consciência, o que é um sinal de seu desenvolvimento psicológico. Não se deve esquecer que a criança de doze anos está nas primeiras etapas da adolescência e que o processo até o amadurecimento total não é uniforme. A isso se devem as atitudes flutuantes da criança que atravessa esta etapa. É uma idade em que se planejam com grande entusiasmo as festas mistas, ainda que seja muito provável que durante a reunião as meninas fiquem de um lado e os meninos de outro. O grupo desempenha um papel fundamental na configuração das atitudes e interesses da criança de doze anos, particularmente na vida escolar. O grupo pode combinar, por exemplo, pregar uma peça na professora. Uma das características principais da criança de doze anos está em apresentar um grande avanço no pensamento conceitual e mostrar interesse pelo significado das palavras “justiça”, “crime”, “vida”, “lealdade”  etc. Costuma realizar com grande determinação as tarefas que se propôs e a dar enorme importância à discussão e ao debate na sala de aula. A curiosidade espontânea é imensa.

 

Apesar de seu gregarismo, a criança de doze anos é perfeitamente capaz de se entreter sozinha e pode sentir-se inclinada a escrever ou pintar. Algumas gostam muito de escrever cartas e outras tentarão fazer um jornalzinho. Costumam gostar de cinema e a escolha do filme preferido dependerá da presença nele de algum astro da moda. Uma característica destacada no desenvolvimento intelectual e psicológico da criança de doze anos é sua capacidade de questionar-se constantemente sobre a morte. Em algumas ocasiões pode formular, com grande facilidade, perguntas filosóficas.

 

 

COMO MELHORAR A COMUNICAÇÃO ENTRE PAIS E FILHOS

 

A nova estrutura familiar

A relação entre pais e filhos tem mudado radicalmente nas últimas gerações. Devido às transformações sociais, o casal, na atualidade, trabalha fora e divide as tarefas domésticas e a educação dos filhos de maneira mais equilibrada. Há poucas gerações, não era comum ver um pai dar mamadeira ao bebê. Não era papel do homem acompanhar os estudos dos filhos nem dividir com eles seus problemas.

 

A função das mulheres na família também mudou. Como trabalham fora de casa, sua visão do mundo se ampliou, modificando profundamente sua relação com a família em muitos sentidos. Essa nova situação levou a mulher a pensar sobre a necessidade de comunicar-se melhor com seus filhos. Geralmente, a mãe que se dedica apenas ao trabalho doméstico não questiona a comunicação que tem com os filhos porque passa todo o dia com eles. As mães que trabalham fora, porém, tendem a desenvolver um sentimento de culpa que as estimula a procurar qualidade durante o tempo que estão com seus filhos, mais do que quantidade. Nesse aspecto, é notável a mudança ocorrida no interior da família.

 

É amplamente conhecido o fato de que o filho se identifica com o pai e a filha, com a mãe. Por ser esse um dos fatores determinantes para a formação do caráter da criança, a relação entre pais e filhos e a boa comunicação entre os pais são fundamentais. O que se denomina “masculino” e “feminino”, os interesses, a roupa e certo tipo de comportamento dependem de padrões culturais e educativos. Na atualidade, a maioria das mulheres não corresponde à imagem de passividade e fragilidade que era considerada a essência da feminilidade para as gerações anteriores.

 

Trabalhar com as crianças em alguma atividade tradicionalmente considerada feminina ou masculina – carpintaria, costura, execução de bijuteria, fazer doces ou maquetes – pode gerar intensa comunicação e amizade entre pais e filhos. É importante que as atividades escolhidas sejam adequadas para que a criança possa realmente participar e sentir que faz algo proveitoso. Ela não consegue concentrar a atenção por muito tempo, e os pais devem saber quando ela chegou a seu limite.

 

Apoie os interesses de seu filho

Apoiar os interesses do filho pode ser uma grande oportunidade para melhorar a comunicação com ele. Trata-se de identificar na criança o que mais lhe interessa e apoiá-la em seu desenvolvimento, mas não é recomendável, em nenhum aspecto, forçá-la. Alguns pais, movidos por frustrações pessoais, pressionam seus filhos para que se destaquem na música, no tênis, na pintura ou em qualquer outra área na qual eles mesmos fracassaram. Se a criança gosta de pintar, matricule-a num curso de pintura, leve-a a museus, comente com ela seus desenhos, estimule sua criatividade; se prefere a música, compre discos, escute-os a seu lado, cante com ela.

 

A leitura em voz alta pode ser fundamental para a convivência entre pais e filhos. Crianças de todas as idades são fascinadas por histórias infantis. Leia-as em voz alta e permita que a criança lhe faça perguntas sobre o texto. Quando ela pedir, repita uma página ou leia outra vez o livro todo.

 

Ajude-a a desenvolver ao máximo suas capacidades e, sobretudo, demonstre seu apoio e disposição para escutá-la. Essa atitude beneficiará a criança em todos os níveis. Os estudos sobre rendimento escolar demonstram que a participação dos pais é essencial. Quando a criança percebe o interesse do pais, procura ser bem sucedida. O mesmo acontece com os esportes e as atividades artísticas.

 

Compartilhe novas experiências com seu filho

Lembre-se que o interesse da criança é a base para o estabelecimento de uma boa comunicação, o que também se aplica a outras atividades que costumam ser realizadas no tempo livre. Antes de fazer despesas, é importante descobrir qual é, realmente, o interesse da criança. Por exemplo, algumas crianças pequenas gostam de ir ao futebol, mais interessadas nos doces e brinquedos que são vendidos no local do que no jogo em si. O mesmo ocorre com os passeios no campo e as excursões. É possível que os pais pensem que as crianças apreciarão uma pescaria, quando o que mais lhes interessa é brincar no rio.

 

Os pais terão grande prazer em reviver suas próprias experiências infantis e identificar-se com seu filho a cada momento. A primeira ida ao cinema, ao zoológico ou à praia podem ser altamente estimulantes. Não é necessário preparar passeios complicados; às vezes pode ser suficiente observar uma borboleta, um inseto ou um formigueiro no parque.

 

Auto-estima e comunicação

Uma boa comunicação com o filho pode ser definitiva para o desenvolvimento de sua auto-estima. Faça o possível para que seu filho se sinta aceito como é. Também é importante demonstrar que ele é aceito independentemente do sucesso que obtenha em algumas coisas. É bom fazê-lo sentir sua aprovação quando faz algo bem feito, mas não limite suas demonstrações de afeto apenas a esses momentos. A confiança em si mesma será um fator determinante para o desenvolvimento da personalidade da criança. Demonstre sua confiança na capacidade de seu filho resolver sozinho certos problemas. Não faça o trabalho da criança. Dê a ela responsabilidades dentro de casa, de acordo com sua idade e capacidade. Criticar demais a criança, dizer-lhe constantemente o que deve fazer, decidir tudo por ela e censurá-la quando fracassa são atitudes que podem facilmente diminuir sua auto-estima.

 

Estimule a habilidade de seu filho para procurar novos amigos. Comente com ele as qualidades de seus amiguinhos, ou converse sobre o que  ele mais gosta nas outras crianças. Quando ele tiver algum problema de relacionamento com os amigos, demonstre apoio e confiança em sua capacidade de resolver satisfatoriamente o conflito. Ensine a seu filho o valor da amizade sendo seu amigo.

 

Ajude seu filho a expressar seus sentimentos

Um dos motivos para que você tenha um bom relacionamento com seu filho é fazer com que ele aprenda a comunicar-se. A criança precisa saber que suas idéias e sentimentos são importantes porque fazem parte da sua personalidade. Incentive-a a dividir com você suas idéias, inquietações e medos. Ainda que você se sinta incomodado por algum sentimento de seu filho, não o rejeite. Se o fizer, a criança aprenderá que não é bom demonstrar o que pensa. Procure compreendê-la. A maioria das crianças é naturalmente afetuosa e demonstra carinho pelos pais sem que seja necessário estimulá-las.

 

A televisão

A televisão é, sem dúvida, fonte de entretenimento. Muitos pais temem que a violência dos programas de televisão seja prejudicial aos filhos e que o excesso de publicidade estimule o consumismo indiscriminado. Temem que a passividade se transforme num modo de vida para as crianças que passam muito tempo diante da televisão. Tudo isso pode ser resolvido se forem estabelecidas algumas normas, como limite de horários – para que o ato de ver televisão não interfira nos estudos – e seleção de programas adequados. É recomendável que os pais vejam televisão com os filhos, pelo menos alguns programas. Isso dará oportunidade para comentar o conteúdo da programação, enquanto a criança poderá esclarecer suas dúvidas e confusões sobre certos assuntos. Também abre a possibilidade de despertar o interesse dos demais membros da família.

 

A comunicação

Conversar constitui um enorme prazer para o ser humano. Estimule em seu filho a arte de conversar para que ele compreenda que é uma das melhores atividades de que as pessoas dispõem para desfrutar a companhia umas das outras. É necessário desenvolver o hábito de ouvir. Quem fala primeiro deve transmitir seu desejo de comunicação. A conversa entre pais e filhos pode começar com uma simples pergunta. Um dos pontos mais curiosos da infância são as respostas das crianças às perguntas mais simples, principalmente no caso de crianças em idade pré-escolar. Os pais que aprendem a escutar seus filhos descobrem uma experiência fantástica e enriquecedora.

 

Comunicar-se com os filhos toma tempo e requer dedicação. É necessário deixar de lado as preocupações do dia-a-dia para estar em contato com as crianças. Sem dúvida, o esforço vale a pena.

 

 

COMO AJUDAR SEUS FILHOS NOS ESTUDOS

 

Um dos pontos mais importantes das relações entre pais e filhos é a partilha das descobertas e novas experiências das crianças com os pais,  inclusive os conhecimentos adquiridos na escola. Por isso, é essencial que os pais se interessem pelas atividades dos filhos, não só nos estudos mas também nos esportes e nas atividades artísticas. A criança deve receber atenção no momento em que a pede. Uma resposta como “Agora  não, estou muito ocupado” fará com que a criança perca o interesse por aquilo que desejava saber.

 

O dia em que a criança recebe o boletim escolar é adequado para estimulá-la ou para chamar sua atenção. Uma ajuda sistemática dará, sem dúvida, melhores resultados. É preciso lembrar que ajudar o filho não significa fazer o trabalho por ele. Fazer o dever de casa da criança, longe de ajudá-la, a prejudicará, pois ela não aprenderá a disciplinar-se e a resolver os problemas que aparecem. Ajudar o filho requer muita perseverança e compreensão. Existem várias maneiras de informar-se sobre o desempenho escolar da criança: visitar a escola, conversar periodicamente com os professores, supervisar os deveres de casa, ensinar a utilizar livros de pesquisa etc.

 

Felicidade, ingrediente vital para o sucesso. O amor e a compreensão dos pais significam segurança e tranqüilidade na vida das crianças. Dificilmente uma criança infeliz conseguirá boas notas na escola. A criança deve fazer seus deveres num ambiente de serenidade e não deve ser repreendida durante as horas de estudo. As medidas disciplinares devem ser tomadas no momento adequado, isto é, imediatamente depois de um ato que os pais reprovam. Seu adiamento para um futuro mais remoto, quando a criança nem se lembra mais do que fez, pode ter efeitos negativos. É preciso buscar um equilíbrio entre as obrigações e a diversão. Algumas crianças aproveitam melhor seu horário de estudo após uma hora de brincadeiras e divertimento. Os pais, depois de observar a conduta do filhos, poderão administrar melhor o tempo que deve ser empregado nas brincadeiras e nos estudos.

 

As crianças e os livros. Na atualidade, os livros são o elemento educativo mais importante. Devido à abundância e à grande disponibilidade de livros sobre todos os assuntos e para todos os níveis, os pais devem selecionar os mais adequados para seus filhos. É importante escolher aqueles que ajudem no desenvolvimento cultural e social da criança. A participação dos pais é fundamental para que as crianças aprendam a usar e amar os livros. Elas devem ser capazes de encontrar com facilidade e rapidez as respostas a suas perguntas. Os pais devem prestar atenção às dificuldades das crianças no momento de fazer uma consulta. Por exemplo, se percebem que a criança não sabe bem como utilizar o índice,  expliquem como fazê-lo. Procurem ter em casa as melhores obras de consulta. Nunca deixem insatisfeita a curiosidade do filho. É função dos pais impedir que a palavra “aprendizagem” se torne sinônimo de “escola, dever e tédio”, em vez de todo um universo por conhecer.

 

Ajude seu filho a confiar em si mesmo. Não há caminho mais rápido para a criança fracassar nos estudos do que a certeza de que vai fracassar. Os sentimentos de medo e dúvida retardam o processo de aprendizagem. Se os pais demonstram confiança nos filhos, eles terão confiança em si próprios. Demonstre claramente a aprovação quando seu filho fizer algo bem feito; não exagere a dimensão dos erros. Se os pais menosprezam as qualidades de seu filho, estarão incentivando a insegurança e o fracasso escolar e pessoal.

 

Sólidos hábitos de estudo. Seu filho deve contar com todos os livros e materiais necessários para organizar seus estudos da maneira mais eficiente. Algumas crianças levam muito tempo fazendo os deveres e, no entanto, tiram notas baixas. Estimule seus filhos a fazerem seus deveres com concentração e disciplina. As distrações podem levar a criança a fazer um trabalho pouco satisfatório. É impossível fazer um bom trabalho com a televisão ligada.

 

Ajude seu filho a aprender a administrar o tempo da melhor maneira possível. Uma boa idéia é que a criança estabeleça um horário fixo para estudar. Desse modo, ela dedicará um tempo razoável ao estudo e terá também um período de descanso e diversão. Ajude seu filho a organizar seus trabalhos.

 

Um lugar adequado para o estudo. O silêncio e a tranqüilidade são indispensáveis para o estudo. É recomendável que a criança tenha um lugar tranqüilo e bem iluminado, onde possa concentrar-se e organizar seu trabalho. É importante não interrompê-la enquanto estuda; todos os materiais necessários para estudar e fazer os deveres devem estar à mão. Uma boa mesa e uma cadeira confortável são elementos essenciais para que a criança trabalhe com comodidade.

 

A importância de saber escutar. Ensine seu filho a escutar. Muitas vezes, graças à atenção prestada durante as aulas, é possível resolver certos problemas nas provas. A aptidão para escutar aprende-se com perseverança. Uma boa idéia é dar à criança um resumo do que será tratado durante a aula. Isso facilitará a concentração quando o professor estiver falando sobre o tema. É conveniente fazer a ela depois algumas perguntas. A criança se acostumará a prestar atenção para responder.

 

Ler melhor e escrever claramente e com rapidez. Se seu filho apresenta problemas para aprender a ler, será preciso complementar  o ensino com exercícios em casa. Convém falar com o professor para saber exatamente quais são as deficiências da criança (falta de vocabulário, problemas de fala, problemas de ortografia, má caligrafia, compreensão deficiente etc.).

 

Se seu filho tem má ortografia ou problemas de caligrafia, você pode ajudá-lo a copiar cada dia uma ou duas frases de algum livro e repeti-la várias vezes. Faça a criança prestar atenção ao que está fazendo e a observar cuidadosamente o traçado das letras e o espaço entre as palavras. Registre o tempo que ela leva e gradualmente faça com que escreva mais depressa, sem diminuir a qualidade da escrita.

 

Além das sugestões específicas do professor, há certas medidas que levarão a melhores resultados na compreensão da leitura. Um método aconselhável é o seguinte:

 

1.   Ler rapidamente o material para se ter uma idéia geral do conteúdo.

2.   Ler uma segunda vez, desta vez procurando captar as idéias importantes e o que o autor quis dizer.

3.  Fazer uma última revisão do texto, relacionando bem todas as suas partes e anotando o mais importante.

4.  Fazer um resumo por escrito, o mais completo possível, das idéias contidas no texto.

 

Como fazer provas. A tensão sentida pelas crianças durante as provas são muitas vezes a causa de sua reprovação. Os pais devem ajudar seus filhos a prepararem-se intelectual e emocionalmente para fazer provas e para considerá-las simplesmente um processo escolar. Faça com que a criança veja que as provas não são uma ameaça, mas sim um instrumento para ajudá-la a melhorar como estudante. Compreender com clareza qual é a finalidade das provas sem dúvida ajudará a criança a superar o medo e o nervosismo.

 

A preparação para as provas deve ser feita ao longo de todo o curso e não de um dia para o outro. Se a criança se prepara para as provas sistematicamente, vai se sentir menos pressionada. Além disso, os conhecimentos adquiridos com pressa e na última hora permanecerão muito menos tempo em sua memória.

 

Uma boa forma de preparação para as provas é acostumar a criança a fazer anotações durante as aulas e ao fazer os deveres de casa. Essas anotações podem ser de grande utilidade para a preparação das provas. A criança deve fazer uma auto-avaliação antes da época das provas para detectar as matérias nas quais tem problemas. Dessa forma poderá dedicar mais tempo às disciplinas em que enfrenta mais dificuldades.

 

Na hora da prova é conveniente que a criança dê uma rápida olhada em todas as perguntas com a finalidade de começar pelas mais fáceis. A criança deve aprender a programar o tempo das provas. Depois de cada prova, ajude seu filho a avaliar os resultados obtidos. Assim você poderá avaliar seus conhecimentos e detectará quais são as áreas em que deve ajudá-lo mais. Com isso as provas terão cumprido seus objetivos: melhorar a qualidade do estudante.

 

Aproveite a nova tecnologia. Atualmente, os computadores são cada vez mais úteis para os estudantes de todos os níveis. Quanto mais rápido as crianças se familiarizarem com essas máquinas, melhor. Também a Internet, se for usada de maneira inteligente e adequada, pode ser de grande ajuda  para resolver  tarefas. No entanto, convém controlar o que as crianças vêem na Internet. Há muito material inadequado para as crianças e adolescentes; além disso, elas precisam de orientação para não perder um tempo precioso que poderiam dedicar a pesquisas relevantes para o estudo.

 

 

QUAL É O PAPEL DA ARTE NA EDUCAÇÃO?

 

O que é arte? Quase inevitavelmente, quando um adulto escuta falar em arte pensa nas chamadas belas-artes, que ele considera um espaço privilegiado de gente de sua idade. No entanto, isso não é de todo certo. Embora a grande maioria dos artistas que se destacaram na história fossem adultos, não faltam adolescentes e crianças que deixaram importantes mostras de sua expressão, tanto nas artes plásticas quanto na música ou na dança, para não falar do cinema, onde os artistas mirins surpreendem a muitos pela naturalidade com que atuam. Por que isso? Porque para a criança, ao contrário do que para o adulto, a arte, ou melhor dizendo, a expressão artística, é uma brincadeira a mais.

 

Entretanto, não é qualquer pessoa que se desenvolve corretamente nessa brincadeira.  Para brincar é necessário outro fator: a habilidade para desenvolver a técnica requerida e chegar ao final com uma amostra que se destaque sobre o que já se tenha visto no espaço no qual a criança se encontra.

 

A arte, ao contrário do que muita gente pensa, é antes de tudo questão de trabalho. É claro que a inspiração, o que poderíamos chamar de “imaginação”, também é muito importante. Mas falta alguma dessas qualidades à criança? Evidentemente, não. Com a imaginação ela se diverte construindo mundos cheios de obstáculos que, à medida que são superados, trazem mais segurança. Tampouco lhe falta iniciativa para o trabalho, principalmente o trabalho relacionado com a arte: o trabalho criativo, inventivo.

 

As crianças gostam de criar. Quando têm um objeto nas mãos,  transformam-no em outra coisa, embora ps adultos possam pensar que elas estão destruindo. O mesmo ocorre quando lhes damos papel e lápis de cor. Nesse caso, o difícil é evitar o choro quando chega a hora de dormir. O que dizer de quando uma criança vê um piano ou um violão? Imediatamente o toca, e até o chão acaba sendo um bom tambor. E quanto à dança, é preciso vê-las quando escutam música rítmica: marcam seus próprios passos sem medo de crítica, giram, se balançam, pulam.

 

A expressão artística é natural no ser humano e é precisamente na infância que se manifesta com mais liberdade e naturalidade. Para variar, são os adultos medrosos que bloqueiam essas iniciativas. Ainda hoje é comum o medo dos pais diante da idéia de que o filho seja “artista”, já que carregam o discurso velho e fora de moda de que arte é vagabundagem. Nada mais falso!

 

O artista é um criador e é um homem de idéias... e para desenvolvê-las, para ver sua “criação”, é preciso um grande domínio técnico, um profundo nível de conhecimento e uma grande capacidade de trabalho. Claro que essas qualidades só existirão se forem devidamente motivadas desde a infância.

 

Para começar, confundimos a imaginação da criança com “mentira” e tendemos a reprimi-la. No entanto, a imaginação é muito mais que isso. Sem imaginação não existiria nenhum dos artefatos que nos rodeiam, para dar só um exemplo. Mas se a imaginação for canalizada para os sentimentos e os conceitos sobre o mundo que cerca a criança, estará sendo resgatado nela a parte sensível, “humana”, que tanta falta faz num mundo tão tecnológico e sem sentido claro como o nosso.

 

Mas a arte é, também, comunicação. Se permitirmos à criança expressar-se através da arte, com os materiais que forem necessários, inclusive seu próprio corpo, estaremos lhe dando um novo espaço para se comunicar. Nesse espaço ela recorrerá a uma linguagem própria e caberá a nós compreendê-la.

 

Além do mais, ao criar, a criança torna-se “construtora” e no processo vence desafios. Quando uma coisa se torna fácil, a criança se desinteressa e a deixa de lado, procurando algo mais complicado com que se entreter. A arte permite a expansão ilimitada dessa procura e, com ela, a constante superação. Cada desafio que a criança vence deve ser, por outro lado, devidamente reconhecido por seus pais, já que para ela o triunfo é motivo de orgulho. Se não lhe damos o valor merecido, cumprimentando-a por isso, a criança pode achar que fracassou. Pouco importa se gostamos realmente ou não, o que importa é que seu esforço seja reconhecido.

 

Claro que não se trata de elogiar a criança sem motivo e por qualquer coisinha. As crianças são inteligentes e nos observam, vêem como somos e, sobretudo, se somos sinceros. Aqui temos que estar muito atentos: nem tudo é digno de aplauso e temos que saber quando eles estão nos pedindo que seja estabelecido um limite.

 

Outra grande vantagem da arte como elemento educativo é o desenvolvimento das habilidades manuais da criança, que serão úteis para o resto da vida. O trabalho artístico desenvolve as habilidades manuais de forma divertida, seja ou não realizado sobre uma idéia original da criança teve. É importante que as crianças se expressem livremente, mas como estão numa etapa de aprendizagem geral, a imitação também é fundamental, já que através dela se instalam os personagens, animados ou inanimados, do mundo que as rodeia e, em conseqüência, a criança se situa em relação a si mesma e em relação a eles.

 

Assim, a expressão artística é parte importante da formação da criança, já que a conduz ao desenvolvimento intelectual, emocional, manual (técnico) e físico, ajudando-a em sua transformação em ser humano integral e integrador.

 

Outro fator: a apreciação artística. Um fator, em geral deixado de lado por falta de tempo dos pais para se dedicarem a seus filhos, e especialmente à formação deles, é o da apreciação artística. Por isso, cabe aos pais procurar os espaços artísticos onde a criança possa  iniciar-se no campo da observação e análise das artes.

 

“Para que serve isso?”, talvez perguntem algumas pessoas. Para abrir os caminhos da sensibilidade da criança, assim como sua capacidade de análise e compreensão do mundo que a rodeia. As artes servem inclusive para conduzir à natureza e à ciência e exemplos disso sobram na literatura, na música, no teatro e na dança. Mas é necessário dedicar tempo, esse elemento que às vezes, seja por motivos internos ou externos, é tão difícil concedermos a nossos filhos.

 

É preciso que, desde muito pequena, a criança entre em contato com a música e com as artes plásticas, que devem fazer parte de seu ambiente caseiro. Para a primeira opção, estão disponíveis as inovações tecnológicas dos aparelhos de som. Mais tarde, terão contato com as artes cênicas, como a dança, o teatro e até a ópera, todas elas com repertório para crianças.

 

Em princípio, os espetáculos que poderá apreciar são os de curta duração, assim como o tempo que dedicará a um desenho, uma pintura ou uma escultura. Não devemos forçá-la a dedicar mais tempo do que ela acha que deve. Depois disso, com perguntas que a motivem a dar sua opinião sobre o que viu, podemos apoiá-la para que siga por esse caminho, sempre respeitando seus pontos de vista e só mostrando os fatores da obra que consideramos importantes com mais perguntas, no caso de a criança não tê-los observado.

 

Pouco a pouco, a criança dedicará mais tempo à apreciação artística, até integrá-la completamente a sua vida como um divertimento, uma brincadeira a mais, como algo de que desfruta e quer fazer. Quando isso acontecer, a própria criança pedirá aos pais que a levem a diversos espetáculos.

 

Também são importantes as artes visuais. Na introdução a elas têm um papel fundamental os videogames e a televisão, através dos quais pode começar a caminhar até um meio mais complexo que é o cinema. Sem dúvida é importante que nesses casos os pais estejam muito atentos para que esses meios não se tornem um elemento entorpecente em vez de um fator motivador.

 

Como? Dedicando-lhes nosso tempo ou deixando-os ocupar o seu com a criação artística. Temos que encontrar tempo para nossos filhos, para sentarmos com eles enquanto desenham e conversar sobre o que fazem; para levá-los ao cinema ou acompanhá-los enquanto assistem à televisão; para ir aos museus, para cantar e dançar com eles, para atuar em suas peças teatrais imaginárias... Dar a eles tempo, e melhor será se este tempo se transformar em obra de arte, o alimento do espírito, a inteligência, a observação, concentração, memória, desenvolvimento físico e muito mais.

 

 

O PROBLEMA DO FILHO ÚNICO

 

No passado, dizia-se com freqüência que um casal não devia ter um filho só porque isso seria negar-lhe a possibilidade de se desenvolver em coletividade, num meio social no qual poderia se relacionar com outras crianças, com as quais dividiria idéias, emoções, experiências e até objetos. Para muitos, chegava a ser quase um imperativo: se uma criança não tinha irmãos, “inevitavelmente” veria apenas a si mesma e seria uma egoísta.

 

No entanto, isso não é de modo algum uma regra. Naturalmente, o filho único terá a atenção total dos pais, sem precisar dividi-la com irmãos, o que não significa necessariamente que os pais apoiarão as atitudes egoístas e centralizadoras do filho. Pode haver um lado bastante positivo na questão, notadamente o incentivo que o filho único recebe dos pais para o desenvolvimento de sua inteligência, de sua capacidade de comunicação e de sua segurança como indivíduo.

 

Para evitar os problemas decorrentes da solidão infantil, os pais devem se preocupar em promover o contato do filho com outras crianças. A vida contemporânea, em que são cada vez mais raras as mulheres que se dedicam exclusivamente à criação dos filhos, leva as famílias a procurarem cheches, onde bebês de poucos meses já participam de uma vida comunitária ao lado de outras crianças da mesma idade. Essas crianças substituem, talvez com vantagem, a presença de irmãos, já que são iguais em idade e desenvolvimento, sem a relação de superioridade ou inferioridade que irmãos mais velhos ou mais novos determinam.

 

O grande erro dos pais seria manter a criança isolada, com pena de enviá-la para uma escolinha maternal. Para substituir o vazio da vida da criança, os pais geralmente compram brinquedos em excesso ou um animal de estimação. Entretanto, embora as duas coisas sejam importantes para o desenvolvimento da criança, nenhuma delas pode, isoladamente, preencher a função socializadora da convivência com outras crianças.

 

O filho único e isolado de outras crianças pode apresentar alguns dos seguintes problemas:

 

·     Ser autocentrado, resultado da atitude dos pais em relação a ele. Na falta de outros filhos, sobrecarregam o filho único com atenções excessivas e muitas vezes chegam a relegar a segundo plano a relação do casal em nome da relação com o filho.

·     Falta de adaptação social. Por não ter convivido com crianças de sua idade, terá dificuldade em compreender os colegas quando entrar na escola e de ser compreendido por eles, o que provoca  uma atitude de isolamento e solidão.

·     Incapacidade de relacionar-se com outras crianças. Se a criança se desenvolve num ambiente em que só há adultos, aprende a imitar suas atitudes, comportamento e visão de mundo. Quando for obrigada a interagir com outras crianças, não será capaz de integrar-se a elas ou de compreender seu mundo.

·     Egoísmo. Seus atos serão guiados somente pelo interesse pessoal, o único que conhece e valoriza.

·     Necessidade de chamar a atenção. Por não conviver com outras crianças de sua idade e por não participar por completo do mundo dos adultos, a criança, diante da sensação de abandono e solidão, exigirá a atenção dos pais por qualquer meio que lhe ocorra. O problema surge quando os pais, por  não saberem o que fazer para que a criança se socialize, optam por atender a todas as suas exigências, tornando-a uma criança mimada.

·     Emotividade excessiva. Devido à mesma situação de desequilíbrio e de solidão, essa criança não passa pelos testes coletivos que fortalecem o indivíduo e pode tornar-se medrosa, frágil e chorosa.

·     Ansiedade. O mesmo medo do vazio de seu mundo leva a criança a solicitar com ansiedade que seus espaços sejam preenchidos de modo satisfatório, manifestando nervosamente seu desejo.

·     Dificuldade de integração. Além da falta de adaptação ao meio, o filho único pode repelir, pelo medo do novo, a coletividade que lhe é apresentada como opção, refugiando-se no único lugar onde se sente seguro: sua casa e, com maior freqüência, seu quarto, onde os objetos fazem com que se sinta no centro de um mundo em que ele manda e não é questionado.

 

Para o filho único criado longe do convívio de outras crianças, a integração social é muito mais difícil. Em princípio, ele nem sequer tem com quem comunicar-se, identificar-se ou quem imitar. Não tem o exemplo de um semelhante com quem amadurecer na vida cotidiana ou nas brincadeiras. Ele só vê os adultos que o rodeiam e a imitação destes o leva a pular etapas de seu desenvolvimento, sendo adulto antes do tempo. Essa criança-adulto, mais “doutrinada” que “educada” por seus pais, exibe as seguintes atitudes: não corre, porque não quer transpirar; não brinca, porque não quer ou não deve sujar-se; não sobe numa árvore porque não quer ou não deve machucar-se etc. Está cheio dos medos que os pais lhe impuseram, diante de seu próprio medo de perdê-lo, reprimindo-o e impedindo que seja uma criança comum, isolando-o de outras crianças. São os preconceitos dos pais, impostos ao filho, que marcam sua anti-sociabilidade. A criança, ao ver outras iguais a ela, quer de uma forma natural participar de suas brincadeiras, mas os pais a proíbem, obrigando-o a ficar em casa, sob seu estrito controle e fazendo o que eles determinam.  Em geral, o filho único criado dessa maneira é uma criança triste.

 

Sem dúvida, diante das atitudes dos pais, a criança se defende. Às vezes procura com quem brincar às escondidas, mas em geral, ressentida pela solidão na qual é obrigada a viver, “agride” os pais à sua maneira, exigindo deles todo tipo de compensações, materiais ou não, com que substituir a falta de outras crianças. Os pais, vencidos completamente por seu medo e sua insegurança, disfarçados de mil razões, dão-lhe essas compensações sem titubear, mimando a criança em vez de demonstrar-lhe amor com respeito e veracidade. Pouco a pouco, a criança vai exigindo mais, chegando às vezes a adoecer com a intenção de manter a mãe junto de si.

 

O filho único, como todas as crianças, joga e faz suas regras, mas em seu caso esse jogo se perverte perigosamente e pode levá-lo aos problemas já examinados. Mas o erro não está nele. O erro encontra-se nos pais temerosos que não souberam deixá-lo existir e que não procuraram o caminho para integrá-lo socialmente. São os pais que devem romper esse vínculo doentio de relação dependente com o filho único. São os pais que primeiro devem ser corajosos e ensinar esse filho a enfrentar o mundo com a mesma coragem. Ainda que seja difícil, são eles que devem forçá-lo a afastar-se, não permitir nele o medo e a dependência, levando-o a lugares onde possa encontrar-se com crianças de sua idade com quem compartilhar interesses e inquietações comuns. Um mundo infantil como o que, no final das contas, proporcionam os jardins-de-infância, que além de solucionar um problema real para a mãe que tem de trabalhar, são um meio ideal  para a socialização e para o desenvolvimento intelectual, emocional, físico e motor da criança. Também são os pais que, esquecendo incômodos e egoísmo, devem estar dispostos a abrir as portas de sua casa aos amigos do filho, já que estes cumprem, na ausência de irmãos, um papel fundamental. É preciso criar condições para que o filho único divida seus brinquedos e jogos com outras crianças. Montar quebra-cabeças com os outros, participar coletivamente de jogos, como as adivinhações, comentar histórias, ouvir discos, cantar, dançar e tudo aquilo que o faça relacionar-se com outras crianças será de grande utilidade para o filho único.

 

Está nas mãos dos pais a sociabilidade e a adaptação e, em conseqüência, o pleno desenvolvimento do filho. Se estão conscientes disso e do direito do filho à amizade, provavelmente o problema do filho único será coisa do passado e terá deixado de ser um fantasma ameaçador.

 

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